sexta-feira, 2 de outubro de 2009

aindo tô vivo! ao menos é o que espero.
tá rolando uma correria legal ultimamente, essa coisa de ano pessoal número UM tá dando resultado. tô bem e espero ficar melhor. e quando der dou uma atualizada, tem uns textos legais e não tão depressivos que ainda não postei. um beijo e um final de semana daqueles.

domingo, 27 de setembro de 2009

percebi que tudo que escrevo acaba indo pro mesmo lugar. to achando ruim.
em breve dou uma postada de novo, deixa baixar a inspiracao. beijos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Isabela

Cruzei a rua e a vi observando sua própria imagem refletida nos vidros de um carro qualquer. Ela usava blush vermelho nas bochechas, uma provável tentativa de se sentir mais mulher. Tinha mudado a blusa e o sapato era velho mas tinha um certo charme. Pra ela. As pessoas que viam aquela mulher ali, apreciando uma imagem que não era a sua habitual, pensavam na loucura. Ela não. Pensava na beleza. Na mudança.
Nosso primeiro encontro havia acontecido há alguns dias atrás. Um amigo meu apontou pra ela, olha que estranha, disse, é famosa aqui na rua. Ela tinha cabelos longos e usava uma pantufa nos pés, como alguém que saiu de casa pra ir na padaria ao lado e esqueceu de pôr os sapatos. Observei de longe que ela pedia alguma coisa pra todas as pessoas que cruzavam por ela na calçada. Meu amigo disse que pedia cigarros. Ela desapareceu junto com o início da noite e eu fui pra casa sem pensar nela. Na semana seguinte a vi de novo. Estava perto de mim enquanto eu saía da padaria com um maço de cigarros recém comprado no bolso. Ela veio em minha direção e pediu um cigarro. Eu disse que não tinha. O maço no meu bolso pesou mais que o habitual, talvez um reflexo da minha consciência mentirosa. Ela saiu e foi procurar outra pessoa que pudesse alimentar seu vício. Eu havia sido descartado. Percebi que conseguiu um cigarro de um homem qualquer, mas não fumou. Guardou em sua bolsa e continuou na batalha por mais alguns. Até que a perdi de vista.
Os dias foram passando e eu pensava nela às vezes. Imaginava onde morava, como era sua vida, se tinha família, um cachorro, amigos ou qualquer pessoa que pudesse compreender suas vontades. Imaginei ela chegando em casa e derramando um punhado de cigarros em cima de uma mesa suja, um sorriso no rosto festejando o sucesso do dia. Ela tirava as pantufas dos pés, pegava uma caixa de fósforos e começava a se divertir com seus prováveis únicos companheiros noturnos. Depois de treze ou quatorze cigarros apodrecendo no cinzeiro, ela dormia pra acordar disposta no dia seguinte e continuar sua corrida. Completamente nova, feliz, objetiva. Não lhe faltavam certezas, ela era aquilo e aquilo era seu mundo.
Segunda-feira, oito horas da manhã, saí de casa correndo e vi ela lá, pedindo, por favor, um cigarro. Passei reto, com um maço fechado no bolso, do outro lado da rua, fingindo que não conhecia, fingindo que não fazia diferença. Ela ficou na minha cabeça pelo resto do dia. Sempre que eu ia acender um cigarro pensava naquela figura que não era humana, que não era mulher, que não era nada. Que me intrigava e que me fazia compreender qualquer busca por objetivo que fazia falta dentro de mim. Ela precisava só de cigarros, eu precisava de tudo e mesmo assim não me sentia completo. Eu deveria era me tornar um andarilho, entrar para o clã dela, andar por aí mendigando um pedaço de satisfação que pudesse preencher meus dias, minhas noites, meus espaços. Ela tinha tudo isso, ela usava pantufas e roupas ridículas, ela era ridícula, mas mesmo assim parecia feliz, mais completa a cada cigarro enquanto eu perambulava pelos corredores de uma empresa exploradora, sorrindo pra pessoas que desgostava, sem saber onde encontrar meu fim.
No dia em que a vi se encarando no vidro do carro pensei em abortá-la, pedir a ela que me ensine, que me acorde, que me diga onde consegue achar tudo que eu não consigo encontrar. Pedir que me mostre como pode enganar sua solidão com apenas alguns cigarros vagabundos. Eu queria. Queria mesmo, sabe. Quando tinha treze anos ganhei um computador. Fiquei feliz nas primeiras horas, depois disso veio o tédio, o conforto, a chatice, já queria mais e quando tinha, continuava querendo. Quero ser simples. Quero querer o simples. Botar na fogueira toda essa high tech, esse entretenimento barato, essa porra de quadrado eletrônico que eu nem sei pra quê serve, rasgar minhas roupas, arrancar meus cabelos, colocar fogo na imagem que eu criei pra me proteger. Comecei a caminhar em direção a ela, que continuava contemplando a mulher que já não lembrava mais existir, orgulhando-se de ter abandonado as pantufas e encontrado uma vaidade desconhecida. Meus passos foram ganhando velocidade enquanto ela continuava ali, imóvel, abismada, hipnotizada na frente do reflexo no vidro do carro, trancada como narciso dentro de si próprio, eu não queria perdê-la, acelerei os passos e parei diante dela, ofegante. Ela nem me olhou. Eu tirei do bolso um maço de cigarros que tinha comprado na noite passada. Ela olhou pra minha mão estendida e me encarou nos olhos, voltando a focar no maço em cima da minha palma aberta. Eu lhe lancei um olhar de generosidade e aproximei minha mão da mão dela, sem falar nada, um momento que não precisava de mais nenhum barulho a não ser o silêncio gritante que pairava ao redor. Sua mão foi vindo em direção à minha, o meu coração palpitando mais forte e a testa começando a suar. Ela hesitou. Recuou. Desistiu, não sei, talvez já havia desacreditado na generosidade humana. Pega logo, eu pensava. Ela ficou imóvel. Alguém saiu da padaria ali perto e chamou por Isabela. Ela virou rápido e um homem de terno surrado e chapéu cinza a observava, com uma sacola de plástico na mão recheada de pães. Chamou de novo. Ela olhou pro maço de cigarros ainda estendido na minha mão, abriu seus lábios e projetou sua voz para que eu pudesse escutar um não, obrigado. A mulher saiu caminhando desajeitada naqueles sapatos velhos e deu a mão esquerda para o homem do chapéu, lançou um último olhar de pena para mim e seguiu caminhando com ele, os dois estranhos assim, completos, únicos, preenchidos. A piedade dela entrou como uma lança quente no meu coração frio. Doeu. Fiquei pelo menos cinco minutos parado ali, imóvel, sozinho, triste. Sentei no cordão da calçada, abri o maço de cigarros que ela havia recusado, risquei um fósforo e comecei a fumar. Isabela. Não sei quanto tempo fiquei ali. Levantei a cabeça que estava encostada nos joelhos dobrados e vi o maço vazio, jogado no chão. Decidi ir embora pra casa. Derrotado. Vazio como o maço. Precisando acordar em um novo dia pra poder encher ele de novo, ser mais novo, mais humano. Preenchido como havia conseguido ser Isabela.

*essa mulher realmente existe, vive perambulando pela minha rua à procura de cigarros. eu sempre neguei. sei lá, medo, pena, egoísmo. ela ainda não trocou as roupas e nem passou blush nas bochechas. eu nem sei seu nome. mas ela me intriga.

domingo, 20 de setembro de 2009

Ponto

Me sinto velho demais pra falar das coisas novas, não enxergo o futuro que está diante dos olhos das minhas crianças de dentro. Não me vê? Não me acha? Eu sei, é difícil. Dignidade não existe. Não me cobra o controle sobre um poder que nunca experimentei, por favor, eu nunca quis ser corrupto a ponto de decepcionar todo mundo. Não quero. Não me força a conseguir qualquer coisa, qualquer um, qualquer encontro, farsa, saber, exigência. Não exige muito de mim porque eu não posso te pagar. Não me sobra mais muito. Não me quero mais direito. Quero errado, disconexo, perplexo. Chega de sabotagem: a partir de agora eu só quero não saber mais de nada, quero ser um porco ignorante pronto pra fazer contente tudo o que me mandarem e ponto, pronto.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Semana

Só mais um dia. E as coisas melhoram. Só mais um dia pra tentar enlouquecer diante de todo conhecimento gerador da consciência humana. Só mais um dia de caos, de patifaria, de tirania, agonia. Ansiedade. Espero pelo dia. Minha cabeça gira em torno de um propósito estilhaçado e espatifado em um chão qualquer. Também quero uma nova onda, quero criar, posso ser útil, me ajuda que te ajudo a mudar o que você quiser. Não tento, mas quero. Só mais um dia esperando chegar aquela bendita dor de prazer pós-orgasmo pra satisfazer minhas superfícies. Não sou tão profundo. Não sou tão aparente. Te deixo entrar a qualquer hora, desde que não me faça suplicar por um ato imediato inacabado. Sou um feto. Só mais um dia pra nascer. Não vou ser criança, vou ser mero objeto ilusório, vou ser atraente e simpático, prometo ficar de olhos fechados. Mais um dia e você vai ver. Chega de sacanagem. Corrompidos somos todos nós, não me faz olhar pro mundo de uma maneira que não queira voltar atrás. De olhos abertos, agora, me ajuda a enxergar o que não vejo de dia, me faz entrar por um túnel de problemas pra sair com a cara limpa num pôr-do-sol estimulante. Me estimula! Preciso parar de entrar em contato com qualquer coisa que não deseja me ver. Me deixa viver. Deixa eu viver você, ele, ela, nós. Só mais um dia e eu vou entender tudo que eu sempre quis decifrar, mas que nunca cheguei nem perto. Vou ver o que acontece quando acordo às oito da manhã esperando pelo fim da noite. Mais um dia. Um só. Não vai machucar. Espera comigo.

*não gosto muito desse, mas quis dar uma atualizada enquanto não acabo um que tá ficando bom. beijos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

É Crédito

- Eu não costumo vir assim, em cartomantes, mas eu senti que precisava de ajuda. Tudo bem, eu posso seguir meus instintos, ou me suicidar, ou consultar meus pais, amigos, fazer contatos, tentar uma carreira profissional que me dê segurança, encontrar um amor que preencha minhas noites de insônia. Mas eu nem sei se quero isso, sabe? O problema é esse, eu nem sei o que quero de verdade. Já tentei psicólogo, psiquiatra, conselhos, não adiantou. Será que essas coisas místicas funcionam mesmo? Eu nunca acreditei, mas eu ando tão desesperado que já tô apelando a isso, sei lá, vocês andam com esses panos enrolados na cabeça e passam o dia atirando umas cartas ou conchinhas na mesa, você me garante que traz resultado? Que tipo de garantia? Olha que eu não tenho muito dinheiro, não viria aqui se não sentisse que fosse muito necessário, sabe, tem muita gente por aí só querendo se aproveitar do nosso oh-my-god-não-sei-o-que-fazer. Então, esse é o problema mesmo, já disse, não sei o que fazer. Passo os dias coçando o saco dentro de casa, na esperança de que alguém me ligue falando que ganhei uma bolsa de estudos na França ou que um anônimo depositou setecentos mil na minha conta, assim, de presente. Mas faz um tempo que espero e nada disso acontece. O que eu faço, senhora-das-cartas? Você consegue fazer baixar, sei lá, o santo da felicidade em mim, ou fazer com que tudo dê certo a partir de agora? Porque eu sinto que nunca deu. As pessoas pensam que deu, mas nada deu. Tudo bem que eu tive quase tudo que queria, mas isso não foi suficiente, isso não me preencheu por dentro de uma maneira que eu pudesse me sentir completo, feliz, parte de tudo. Eu sei que todo mundo quer isso, mas eu me sinto diferente, eu vejo as pessoas por aí saltitando porque conseguiram um emprego escravo dentro de um escritório, e pra mim isso não faz sentido algum, quero mais, mas sei que quando atingir esse mais vou querer mais e aí já viu, não vou ser feliz nunca. Você trabalha como, exatamente, faz macumba ou o quê? Tenho um pouco de medo disso pra falar a verdade, não quero prejudicar ninguém, não quero que a senhora faça vudu ou jogue umas pipocas na esquina pra alguém se machucar. Eu só quero é mandar embora essa insatisfação, esse desconforto constante, a senhora trabalha com tele-transporte? Porque daí eu ia querer ser mandado pra longe, recomeçar, me descobrir, ser autêntico por fora também. Olha, um gato preto, não dá azar né? Ah, é de estimação, tá bom, quase que chutei ele, uma vez eu tive um gato, mas não era preto, era mesclado. Só que daí foi meu padrasto que chutou pra fora de casa, né, dizia que era alégico a pêlos e essas coisas. Dizem que preto dá azar e de azar já tô cheio, ontem minha chave quebrou e eu fiquei trancado do lado de fora do apartamento, assim, no corredor, sozinho, com frio. Desculpa, a senhora vê o que aí? Sorte no amor, mas me mostra onde você vê isso? Pensei que isso aí fosse parte da decoração, é uma daquelas bolas de cristal, é? Interessante, pergunta aí pra bola o quê eu faço pra me livrar dessa, como que eu saio desse labirinto angustiante em que tô preso desde que nasci, pergunta? Como assim vou ter três filhos com uma mulher ruiva, eu sou gay, minha senhora, ho-mos-se-xu-al, se é que você me entende, não gosto de embarrigar mulher, não. Ok, te perdôo, todo mundo erra de vez em quando, só que eu já errei demais, às vezes penso que nunca acertei, e essa minha falta de esperança me diz que nunca vou acertar. Seus filhos costumam brincar com esses bonequinhos, ah, desculpa, são santos, amém, oxalá, inxalá, não sei como se diz. É, meu pai e minha mãe são separados , isso você acertou, mas é que na verdade eu já tinha dito que tinha padrasto, então era meio óbvio, não? Desculpa, não quis ofender, claro que acredito na bola sagrada. Você pode pedir tele-entrega de comida pela bola? Não, é só curiosidade, pensei que funcionava que nem telefone, Internet, essas coisas. Ok, já terminou a sessão, mas a senhora nem me disse nada, tudo bem, eu nunca acreditei nessas coisas mesmo. Trinta? Você aceita cartão? Pode ser crédito? Vê se não vai ver minha senha na bola, tá bom? Ótimo, então, o prazer é todo seu.

*adoro rotina com correria. e que bom que a chuva ta parando! beijos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Não quero anjos

Por mais que soubesse que faltava alguma coisa por ali, ela não pensou duas vezes antes de partir. Decidiu ouvir as vozes serenas de sua consciência e se mandar de uma vez por todas. O que lhe faltava era impulso, mas não mais, agora ela podia se orgulhar da enorme atitude que tomaria. Querendo ou não, era algo pra se guardar. Na melhor das hipóteses, alguém acharia seu corpo estendido completamente naquele chão imundo e chamaria a polícia. Quem culpariam? Ela tinha decidido: era vítima e assassina. Ela queria pegar suas roupas e jogar pela janela, mas desistiu porque talvez alguém pudesse querer guardar de recordação. Não, não, ninguém ia querer. Só uns trapinhos baratos dessas lojinhas que todo mundo compra no crediário. Ela decidiu não fazer falta pro mundo, decidiu não ser mais um pedaço de obstáculo nas manobras que os outros faziam. Deixa eu ser assim, pensava, completamente invisível, me deixa desaparecer no meio dessa escuridão fascinante que você ainda não pôde experimentar. Ora, não se fala dessas coisas com ninguém, só em pensamento, então ela não pediu opinião, decidiu sozinha, e pela primeira vez tomou uma decisão cem por cento sua. Só não me atiro porque tenho medo de altura. Seria mais emocionante, mas daí todo esforço necessário pra conseguir esse revólver ia pro ralo. Ela decidiu não ter mais que pensar, não ter que sorrir quando está chorando por dentro, não ter mais que trabalhar desgastantes quarenta horas por semana pra conseguir pagar a conta do supermercado. Ele queria um apartamento grande e bem localizado, e eu que tive que me virar pra pagar, agora que se dane, vai morar com a mamãe ou arranja outra puta pra pagar tuas dívidas. Babaca, quero ver quem vai lavar as cuecas imundas. Aposto que vai fingir derramar umas lágrimas só pra não ficar chato pros parentes. Babaca. Eu ainda agüentei por três anos. Babaca... Babaca. Babaca! Como que eu engatilho isso aqui? Devia vir com manual. Não é todo mundo que tem um brinquedinho desses em casa. O cara da arma disse que tinha que colocar as balas, apertar alguma coisa, mirar e pá. Seria esperar até o chumbo penetrar sua carne fria pra então ir direto pro paraíso. Ou pro inferno. Dizem que o paraíso é sem graça, não tem droga nem putaria, quero é ir pro inferno que com certeza é mais parecido com esse mundo aqui. Me jogo no colo do capeta e não penso duas vezes antes de ser livre em qualquer lugar que seja notada. Ela tirou suas roupas até ficar completamente nua, olhou-se no espelho e observou pela última vez seus peitos caídos e as estrias no quadril. Quero ir embora logo. Mas não é assim, falta coragem. Não, eu tenho atitude, atitude, mulher. Se pudesse eu nasceria de novo, mas o mundo só tende a piorar, foi uma boa escolha não ter filhos. Já me consumi por dentro de todas as maneiras possíveis, já me refiz em cada pedaço de dor. Não quero mais ser vítima, quero matar, tenho sede do meu próprio sangue e sede de vingar uma alma não vivida. Por muito tempo fui só um corpo jogado por aí, implorando pelo perdão de tudo que não tinha feito. Agora me vou. Quem vai no meu enterro? Não me interessa. Não quero ser o foco de um evento mórbido cheio de gente se lamuriando por não ter me dado mais valor. Mesmo assim serei o foco, finalmente, vou estar em cima de um caixão de madeira vagabunda pago em dez vezes sem juros praquela imobiliária oportunista. Não vou deixar herança nenhuma, bebi até o último centavo pra não contribuir com mais nenhuma aventura daquele otário. Ele não pensaria em mim. Eu penso nele, mas com raiva. Um ódio mortal que me faz querer espremer todo resto de vida que corre pelas minhas veias. Sou assassina. Meto uma bala pra que não metam mais nada pra dentro de mim. Ninguém mais vai me encostar. Sou minha própria assassina. Não faço questão de relembrar nada, já vivi muita coisa imprestável em todos esses anos. Já perdi as esperanças de ter um futuro digno misturado com espasmos felizes. Sou nada. Nem quero ser alguma coisa. Só quero ser coisa alguma. Não. Não sei. Deixa eu ter meus devaneios. Um epitáfio contraditório, o que escreverão na minha lápide? Uma alma que não pensou duas vezes antes de nos deixar sofrendo. O caralho. Pensei mais, pensei sete, oito, trinta e três vezes antes de comprar essa coisa aqui. Sofrendo nada, vai ser alívio, sofrimento só vai vir junto com as contas que eu costumava pagar sozinha. Sozinha. Me sinto sozinha, inútil, fútil, desse jeito todo despejada por aí. E se eu desistir? Não da vida, da morte. Não. Quero ser eterna, mas agora. Já. Não. O que eu quero, afinal? Quero esperar mais uma depressão caótica? Não. Não sou eterna. Sim. Será que lá é pior? Não. Sim. Sim... Mais uma vez. Vou tentar. Não. Sim. Não.
Ela apontou a arma pro peito, suspirou pela suposta última vez e aguardou anjos que nunca vieram. Ela não soube disparar, força, destino, não sei. Ela não soube. Ela queria ficar. Não queria, mas devia. Chorou. Saiu do lugar, foi pra casa e fez as malas. Ia pro norte. Pegou o primeiro ônibus, chorou. Conheceu um empresário, apaixonou, casou, ele morreu, ela herdou. Enriqueceu. Teve tudo que queria. Mas não foi feliz. Percebeu que isso não era pra ela, nem pra qualquer um, ser feliz é coisa de gente escolhida a dedo, concluiu. E decidiu partir. E partiu. E conseguiu tudo o que sempre quis: ser coisa alguma.

*cansado e energizado, em dúvida, feliz e triste. não sei também. que venha o futuro, destino ou seja lá que nome dão pra tudo o que vêm pela frente. beijos e um final de semana cheio de espasmos felizes.
 

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