Será que me esqueceram? Será que ninguém vem? Eu sabia que não devia ter marcado nada, eu devia passar meu aniversário dormindo, esperando essas malditas vinte e quatro horas acabarem depressa pra que possamos voltar a um dos trezentos e sessenta e quatro dias de desaniversário, como dizia o chapeleiro, onde eu não seja o foco central de congratulações obrigatórias e três tapinhas nas costas de, ficando velho, hein. Não espero que ninguém venha mesmo. Hoje o dia é meu, então, o que mais mereço é ficar na minha mais solitária e divina companhia. Mas eu convidei. Deviam ao menos mandar uma mensagem dizendo, sei lá, tenho outras coisas pra fazer, opa, preciso fazer sexo e não poderei ir, estou escalando uma montanha na África, hoje é dia de novela, ou qualquer baboseira que sirva como desculpa não-sincera e que me faça entrar num estado de conforto-alívio. Já se passaram treze minutos da hora marcada, dez é até tolerável, mas treze, alguém podia ser pontual ao menos hoje, é sábado, o trânsito nem tá tão horrível assim, o tempo tá bom, tá quente, perfeito pra beber e comer ao som de um rockzinho anos 80. E eu esperei tanto, preparei tudo, até comprei chapeuzinhos pra relembrar os tempos de infância, talvez tenha sido exagero, não sei, mas foi de boa intenção. Vinte e dois anos na cara, dois patinhos na lagoa, esperava que alguém dissesse, mas nem essa triste piada sem graça eu ouvi. Daqui a oito anos tu vai fazer trinta, o tempo passa rápido, hein, me lembro como se fosse hoje o dia em que ainda pegava ele no colo. Porra, nem os parentes? Nem mamãe? E eu pensava que ela me amava. Devo ser adotado, isso sim. Se não, já teriam chegado. Quanto preconceito com adotados! Talvez essa ausência seja um sinal pra eu me atirar da janela do quinto andar, aposto que no enterro todos iriam. Vinte minutos. Exageraram. Vou fazer cara de bravo quando aparecer alguém, tirar satisfação, onde já se viu, deixar o aniversariante sozinho, coisa de gente irresponsável. Será que tem bebida suficiente? Podem ter imaginado, ih, vai faltar bebida, nem vou. De certo foi isso, vou ligar pra tele-entrega e pedir mais, olha, tão me ligando, o quê, descer pro teu apartamento, tá passando mau, já vou, quer que chame ambulância, tá, to indo rápido. Mais essa, meu melhor amigo passando mau, tem que puxar o foco justo hoje, que seria um dia só meu, my special day, porra, eu nem devia ter nascido. Vou deixar a porta encostada, caso chegue alguém nesse meio tempo, vou de escada que o elevador vai demorar, ai, quase torci o pé, toc toc toc, sou eu, abre aí.
- Surpreeesa!
*tô indo pra um aniversário. mas não é surpresa. uma vez fizeram uma festa surpresa pra mim, mas eu não curti. na verdade, eu nunca gostei muito do dia do meu aniversário... beijos.
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