segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Isabela

Cruzei a rua e a vi observando sua própria imagem refletida nos vidros de um carro qualquer. Ela usava blush vermelho nas bochechas, uma provável tentativa de se sentir mais mulher. Tinha mudado a blusa e o sapato era velho mas tinha um certo charme. Pra ela. As pessoas que viam aquela mulher ali, apreciando uma imagem que não era a sua habitual, pensavam na loucura. Ela não. Pensava na beleza. Na mudança.
Nosso primeiro encontro havia acontecido há alguns dias atrás. Um amigo meu apontou pra ela, olha que estranha, disse, é famosa aqui na rua. Ela tinha cabelos longos e usava uma pantufa nos pés, como alguém que saiu de casa pra ir na padaria ao lado e esqueceu de pôr os sapatos. Observei de longe que ela pedia alguma coisa pra todas as pessoas que cruzavam por ela na calçada. Meu amigo disse que pedia cigarros. Ela desapareceu junto com o início da noite e eu fui pra casa sem pensar nela. Na semana seguinte a vi de novo. Estava perto de mim enquanto eu saía da padaria com um maço de cigarros recém comprado no bolso. Ela veio em minha direção e pediu um cigarro. Eu disse que não tinha. O maço no meu bolso pesou mais que o habitual, talvez um reflexo da minha consciência mentirosa. Ela saiu e foi procurar outra pessoa que pudesse alimentar seu vício. Eu havia sido descartado. Percebi que conseguiu um cigarro de um homem qualquer, mas não fumou. Guardou em sua bolsa e continuou na batalha por mais alguns. Até que a perdi de vista.
Os dias foram passando e eu pensava nela às vezes. Imaginava onde morava, como era sua vida, se tinha família, um cachorro, amigos ou qualquer pessoa que pudesse compreender suas vontades. Imaginei ela chegando em casa e derramando um punhado de cigarros em cima de uma mesa suja, um sorriso no rosto festejando o sucesso do dia. Ela tirava as pantufas dos pés, pegava uma caixa de fósforos e começava a se divertir com seus prováveis únicos companheiros noturnos. Depois de treze ou quatorze cigarros apodrecendo no cinzeiro, ela dormia pra acordar disposta no dia seguinte e continuar sua corrida. Completamente nova, feliz, objetiva. Não lhe faltavam certezas, ela era aquilo e aquilo era seu mundo.
Segunda-feira, oito horas da manhã, saí de casa correndo e vi ela lá, pedindo, por favor, um cigarro. Passei reto, com um maço fechado no bolso, do outro lado da rua, fingindo que não conhecia, fingindo que não fazia diferença. Ela ficou na minha cabeça pelo resto do dia. Sempre que eu ia acender um cigarro pensava naquela figura que não era humana, que não era mulher, que não era nada. Que me intrigava e que me fazia compreender qualquer busca por objetivo que fazia falta dentro de mim. Ela precisava só de cigarros, eu precisava de tudo e mesmo assim não me sentia completo. Eu deveria era me tornar um andarilho, entrar para o clã dela, andar por aí mendigando um pedaço de satisfação que pudesse preencher meus dias, minhas noites, meus espaços. Ela tinha tudo isso, ela usava pantufas e roupas ridículas, ela era ridícula, mas mesmo assim parecia feliz, mais completa a cada cigarro enquanto eu perambulava pelos corredores de uma empresa exploradora, sorrindo pra pessoas que desgostava, sem saber onde encontrar meu fim.
No dia em que a vi se encarando no vidro do carro pensei em abortá-la, pedir a ela que me ensine, que me acorde, que me diga onde consegue achar tudo que eu não consigo encontrar. Pedir que me mostre como pode enganar sua solidão com apenas alguns cigarros vagabundos. Eu queria. Queria mesmo, sabe. Quando tinha treze anos ganhei um computador. Fiquei feliz nas primeiras horas, depois disso veio o tédio, o conforto, a chatice, já queria mais e quando tinha, continuava querendo. Quero ser simples. Quero querer o simples. Botar na fogueira toda essa high tech, esse entretenimento barato, essa porra de quadrado eletrônico que eu nem sei pra quê serve, rasgar minhas roupas, arrancar meus cabelos, colocar fogo na imagem que eu criei pra me proteger. Comecei a caminhar em direção a ela, que continuava contemplando a mulher que já não lembrava mais existir, orgulhando-se de ter abandonado as pantufas e encontrado uma vaidade desconhecida. Meus passos foram ganhando velocidade enquanto ela continuava ali, imóvel, abismada, hipnotizada na frente do reflexo no vidro do carro, trancada como narciso dentro de si próprio, eu não queria perdê-la, acelerei os passos e parei diante dela, ofegante. Ela nem me olhou. Eu tirei do bolso um maço de cigarros que tinha comprado na noite passada. Ela olhou pra minha mão estendida e me encarou nos olhos, voltando a focar no maço em cima da minha palma aberta. Eu lhe lancei um olhar de generosidade e aproximei minha mão da mão dela, sem falar nada, um momento que não precisava de mais nenhum barulho a não ser o silêncio gritante que pairava ao redor. Sua mão foi vindo em direção à minha, o meu coração palpitando mais forte e a testa começando a suar. Ela hesitou. Recuou. Desistiu, não sei, talvez já havia desacreditado na generosidade humana. Pega logo, eu pensava. Ela ficou imóvel. Alguém saiu da padaria ali perto e chamou por Isabela. Ela virou rápido e um homem de terno surrado e chapéu cinza a observava, com uma sacola de plástico na mão recheada de pães. Chamou de novo. Ela olhou pro maço de cigarros ainda estendido na minha mão, abriu seus lábios e projetou sua voz para que eu pudesse escutar um não, obrigado. A mulher saiu caminhando desajeitada naqueles sapatos velhos e deu a mão esquerda para o homem do chapéu, lançou um último olhar de pena para mim e seguiu caminhando com ele, os dois estranhos assim, completos, únicos, preenchidos. A piedade dela entrou como uma lança quente no meu coração frio. Doeu. Fiquei pelo menos cinco minutos parado ali, imóvel, sozinho, triste. Sentei no cordão da calçada, abri o maço de cigarros que ela havia recusado, risquei um fósforo e comecei a fumar. Isabela. Não sei quanto tempo fiquei ali. Levantei a cabeça que estava encostada nos joelhos dobrados e vi o maço vazio, jogado no chão. Decidi ir embora pra casa. Derrotado. Vazio como o maço. Precisando acordar em um novo dia pra poder encher ele de novo, ser mais novo, mais humano. Preenchido como havia conseguido ser Isabela.

*essa mulher realmente existe, vive perambulando pela minha rua à procura de cigarros. eu sempre neguei. sei lá, medo, pena, egoísmo. ela ainda não trocou as roupas e nem passou blush nas bochechas. eu nem sei seu nome. mas ela me intriga.

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