quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Torpedo

A mulher sentia suas pernas tremerem, sua barriga suar frio por dentro e a cabeça girando. Não sabia o que era aquele sentimento, mas sabia que algo estava por vir. Um sentimento, talvez, de sei-lá-o-que misturado com qualquer-coisa. A gente nem sempre consegue explicar o que sente por dentro. Mas ela sabia, sabia que algo ia acontecer. Algo pra sempre, sabe. Que muda a vida da gente e que depois a gente pensa, pô, como valeu a pena mudar assim, de repente. Tão depressa. Mudanças são sempre bem-vindas praqueles que não sabem o que são de fato. Eu nunca soube. E a mulher nem sabia. Não sabia de nada. Aliás, será que alguém, nesse mundo todinho, sabe de alguma coisa de fato? A gente nasce, cresce, morre, e depois se pergunta: porque eu nunca fui patinar na Groelândia? É, um animal nem sempre pode ter um rabo, é o que mamãe dizia. Mas voltando à mulher que tremia, ela continuava tremendo, claro, até que deu um pulo, o celular vibrando no bolso esquerdo da calça jeans vagabunda. Era mensagem, mensagem. Ela esperava uma mensagem. O cara disse no dia, vocês serão avisados por mensagem. Eles já tinham o resultado então, e ali estava ele, ali estava a resposta final. O resto de sua vida dependia do processo de clicar-abrir-mensagem e ler, ler o que ela nem sabia o que era, mas que ao mesmo tempo sabia, ia mudar, mudaria sua vida. Certo, for sure, camarada. Era essa a sua hora, o momento em que ela era a mestre, no mundo todo, ela que comandava aquele momento, porque aquele momento podia mudar sua vida. Ela foi clicar, mas pensou, pode não ser nada, pode ser mensagem daquela merda de operadora. Vai acabar com o seu momento, com a magia, com a ansiedade. Foda-se. Ou não. Não, não, não vou abrir agora, afinal, eles iam ligar, mandar mensagem é meio informal demais. Ta, vou abrir, ela pensou. Nos 2 segundos em que seu dedão ia em direção àquele maldito botão-que-ia-mudar-o-rumo-de-sua-vida-ou-não, ela pensou na mãe, no pai, na infância, nos beijos adolescentes, nas dúvidas da vida pré-adulta, pensou no porque pensava tudo com hífen, pensou na roupa que deixou pra lavar, pensou no dia em que perdeu a chance de conhecer o amor da vida dela, pensou nos pacotes de bolacha que devorou nas madrugadas de insônia, nos cigarros fumados pelos bares da cidade, nas mancadas que deu com pessoas importantes, no seu dedo pai-de-todos, porra de hífen, satisfazendo seus desejos e substituindo o toque de um homem. Apesar de tudo, ela foi feliz. Mesmo que sua vida mude, ou não, ela aproveitou e errou e acertou e amou e fez tudo que alguém normal faz hoje em dia. Ponto. Clique. Agora. Você não passou na seleção de trabalho na Argentina. Ponto. Clique. Putz. Merda. Porra. Vida inútil. Afogar as mágoas. Arruma o cabelo e sai. Noite de novo. Beijos e tchau. Continuo na mesma. Mudanças, por enquanto, não. Ok. Nem sempre é nosso dia. Amanha tento de novo.
E, estranhamente, foi nessa noitada, que conheceu o amor de sua vida. Quarenta e cinco anos de casados, até que ele morreu de parada cardíaca. Ela, de velhice. Nada mudou, mas tudo foi diferente.

*será que alguém lê isso aqui? ou pior, será que algué gosta? hehe. beijos pra mim, então.

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