Ontem tinha grupo de estudos na faculdade, uma espécie de aula pra debater cinema e tentar aprender algo que não te ensinam normalmente. Sempre tem convidado, filme, conversa, desconforto. Quase dormi. Mas tomei um estimulante e encarei. Foi só começar a discussão que já surgiu uma velhinha de óculos meio “I surf” querendo meter um monte de bobagens na cabeça da galera. Porra, se liga. Ela era daquele tipo que acha que idade é sinônimo de conhecimento, que só porque viu a Coca ser inventada acha que sabe mais que todo mundo. Daí ela começa e não deixa ninguém falar, expõe as opiniões dela como se fossem algo supremo da inteligência humana. Bullshit. No mínimo deve ter lido um artigo em alguma revista, decorou umas linhas e já quis dar lição de moral. O foda é que ainda teima em falar difícil, colocando palavras de mais de quatorze letras só pra fingir que sabe de alguma coisa. Sabe nada. Quer é causar. Tudo bem, não vou culpar ela, deve ser difícil ficar velho e ver que ninguém tá nem aí pra te ouvir. Que tu só fala do passado, que o futuro não é como os tempos de antigamente. Enfim, saí da aula e vi que ela foi direto continuar a conversa com o convidado, coitado, deve ter agüentado mais duas horas de falação em torno do assunto. Não tinha mais nada pra fazer e resolvi ir pra casa, mas não antes de passar no supermercado e comprar umas cervejas, já fazia três dias que não bebia nada. Cheguei lá, peguei uma cestinha verde e saí pra passear por aqueles corredores cheios de bobagens e falsas necessidades que eu adoro. Mas não comprei nada disso. Não por falta de vontade, por falta de dinheiro mesmo. Escolhi cinco latões da cerveja em promoção, peguei umas barrinhas de cereal pague três leve quatro pra fingir que faço dieta, olhei o preço dos pacotes de papel higiênico e fui embora. Aliás, no ano passado eu fiquei juntando rolos de papel higiênico pra fazer algo de útil, sei lá, pensei que poderia criar uma arte moderna unindo uns trinta num fio de nylon e pendurando na minha parede. Que nada, ficou uma merda, eu até tinha gostado, mas ninguém gostou, daí resolvi colocar fora e acendi um cigarro pra comemorar meu desapego a eles. Porra, foram vários meses juntando. Mas enfim, eu preciso parar de juntar lixo no apartamento achando que posso criar algo genial que vai me garantir o próximo prêmio Nobel da genialidade. Ao menos não juntei sofás velhos, teria ocupado mais espaço. O que eu tava falando mesmo, ah, sim, da velhinha. Não, já foi, acho que tava contando que saí do supermercado, fui pra casa e abri uma cerveja. Ah, líquido dionisíaco. Cerveja e cigarros e solidão e computador e chuva batendo de leve na janela. Quase um orgasmo. Fiquei ali, só aproveitando aquele momento de ócio, que é quase uma terapia pra mim quando eu não tô num dia bom. Não que eu não estava, ontem até que acordei de bom-humor. Quer dizer, não acordei de bom-humor, adquiri ele ao longo do primeiro café-com-cigarro do dia, já que sonhei que tinha assassinado uma pessoa e me senti culpado demais. E no sonho, ou pesadelo, minha mãe tentou esconder a arma que eu tinha usado pra matar em baixo da cômoda do quarto dela, só que depois descobri que não era ela que tinha escondido lá e que ela não sabia de nada, e de repente eu tava brincando de esconde-esconde com uns amigos em uma espécie de labirinto urbano. E daí acordei todo assustado, me sentindo culpado por ter matado alguém só pra levar o coração da pessoa pra aula de biologia. Coisa de sonho. Eu nem tenho mais aula de biologia! Tá, vou te dizer a verdade, isso tudo não aconteceu ontem, aconteceu hoje, e tá acontecendo, cheguei agora desse tal grupo de estudos e tô bebendo a cerveja que comprei no super. Só tomei duas, mas já comecei a mudar de assunto e a escrever umas coisas nada a ver. Mas fingi ser ontem porque eu pretendo publicar o texto amanhã, ou hoje, porque vão ler amanhã mas amanhã vai ser hoje amanhã. Enfim, preciso parar de escrever pra tirar um quinze de sono e recomeçar a vidinha logo depois disso. Obrigado por ter perdido seu valioso tempo comigo. Beijos.
*Na última noite também dei uma sonambulada e derrubei o ventilador no chão. Tsc tsc.
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