sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Não quero anjos

Por mais que soubesse que faltava alguma coisa por ali, ela não pensou duas vezes antes de partir. Decidiu ouvir as vozes serenas de sua consciência e se mandar de uma vez por todas. O que lhe faltava era impulso, mas não mais, agora ela podia se orgulhar da enorme atitude que tomaria. Querendo ou não, era algo pra se guardar. Na melhor das hipóteses, alguém acharia seu corpo estendido completamente naquele chão imundo e chamaria a polícia. Quem culpariam? Ela tinha decidido: era vítima e assassina. Ela queria pegar suas roupas e jogar pela janela, mas desistiu porque talvez alguém pudesse querer guardar de recordação. Não, não, ninguém ia querer. Só uns trapinhos baratos dessas lojinhas que todo mundo compra no crediário. Ela decidiu não fazer falta pro mundo, decidiu não ser mais um pedaço de obstáculo nas manobras que os outros faziam. Deixa eu ser assim, pensava, completamente invisível, me deixa desaparecer no meio dessa escuridão fascinante que você ainda não pôde experimentar. Ora, não se fala dessas coisas com ninguém, só em pensamento, então ela não pediu opinião, decidiu sozinha, e pela primeira vez tomou uma decisão cem por cento sua. Só não me atiro porque tenho medo de altura. Seria mais emocionante, mas daí todo esforço necessário pra conseguir esse revólver ia pro ralo. Ela decidiu não ter mais que pensar, não ter que sorrir quando está chorando por dentro, não ter mais que trabalhar desgastantes quarenta horas por semana pra conseguir pagar a conta do supermercado. Ele queria um apartamento grande e bem localizado, e eu que tive que me virar pra pagar, agora que se dane, vai morar com a mamãe ou arranja outra puta pra pagar tuas dívidas. Babaca, quero ver quem vai lavar as cuecas imundas. Aposto que vai fingir derramar umas lágrimas só pra não ficar chato pros parentes. Babaca. Eu ainda agüentei por três anos. Babaca... Babaca. Babaca! Como que eu engatilho isso aqui? Devia vir com manual. Não é todo mundo que tem um brinquedinho desses em casa. O cara da arma disse que tinha que colocar as balas, apertar alguma coisa, mirar e pá. Seria esperar até o chumbo penetrar sua carne fria pra então ir direto pro paraíso. Ou pro inferno. Dizem que o paraíso é sem graça, não tem droga nem putaria, quero é ir pro inferno que com certeza é mais parecido com esse mundo aqui. Me jogo no colo do capeta e não penso duas vezes antes de ser livre em qualquer lugar que seja notada. Ela tirou suas roupas até ficar completamente nua, olhou-se no espelho e observou pela última vez seus peitos caídos e as estrias no quadril. Quero ir embora logo. Mas não é assim, falta coragem. Não, eu tenho atitude, atitude, mulher. Se pudesse eu nasceria de novo, mas o mundo só tende a piorar, foi uma boa escolha não ter filhos. Já me consumi por dentro de todas as maneiras possíveis, já me refiz em cada pedaço de dor. Não quero mais ser vítima, quero matar, tenho sede do meu próprio sangue e sede de vingar uma alma não vivida. Por muito tempo fui só um corpo jogado por aí, implorando pelo perdão de tudo que não tinha feito. Agora me vou. Quem vai no meu enterro? Não me interessa. Não quero ser o foco de um evento mórbido cheio de gente se lamuriando por não ter me dado mais valor. Mesmo assim serei o foco, finalmente, vou estar em cima de um caixão de madeira vagabunda pago em dez vezes sem juros praquela imobiliária oportunista. Não vou deixar herança nenhuma, bebi até o último centavo pra não contribuir com mais nenhuma aventura daquele otário. Ele não pensaria em mim. Eu penso nele, mas com raiva. Um ódio mortal que me faz querer espremer todo resto de vida que corre pelas minhas veias. Sou assassina. Meto uma bala pra que não metam mais nada pra dentro de mim. Ninguém mais vai me encostar. Sou minha própria assassina. Não faço questão de relembrar nada, já vivi muita coisa imprestável em todos esses anos. Já perdi as esperanças de ter um futuro digno misturado com espasmos felizes. Sou nada. Nem quero ser alguma coisa. Só quero ser coisa alguma. Não. Não sei. Deixa eu ter meus devaneios. Um epitáfio contraditório, o que escreverão na minha lápide? Uma alma que não pensou duas vezes antes de nos deixar sofrendo. O caralho. Pensei mais, pensei sete, oito, trinta e três vezes antes de comprar essa coisa aqui. Sofrendo nada, vai ser alívio, sofrimento só vai vir junto com as contas que eu costumava pagar sozinha. Sozinha. Me sinto sozinha, inútil, fútil, desse jeito todo despejada por aí. E se eu desistir? Não da vida, da morte. Não. Quero ser eterna, mas agora. Já. Não. O que eu quero, afinal? Quero esperar mais uma depressão caótica? Não. Não sou eterna. Sim. Será que lá é pior? Não. Sim. Sim... Mais uma vez. Vou tentar. Não. Sim. Não.
Ela apontou a arma pro peito, suspirou pela suposta última vez e aguardou anjos que nunca vieram. Ela não soube disparar, força, destino, não sei. Ela não soube. Ela queria ficar. Não queria, mas devia. Chorou. Saiu do lugar, foi pra casa e fez as malas. Ia pro norte. Pegou o primeiro ônibus, chorou. Conheceu um empresário, apaixonou, casou, ele morreu, ela herdou. Enriqueceu. Teve tudo que queria. Mas não foi feliz. Percebeu que isso não era pra ela, nem pra qualquer um, ser feliz é coisa de gente escolhida a dedo, concluiu. E decidiu partir. E partiu. E conseguiu tudo o que sempre quis: ser coisa alguma.

*cansado e energizado, em dúvida, feliz e triste. não sei também. que venha o futuro, destino ou seja lá que nome dão pra tudo o que vêm pela frente. beijos e um final de semana cheio de espasmos felizes.

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