sábado, 5 de setembro de 2009

Destí.

Ela caminhava em direção à sua casa, caminhava depois de um dia longo e louco de trabalho escravo na mais perfeita solidão. Escritoriozinho sem janela é foda. Passar oito horas por dia teclando naquele computador velho que ela precisa suportar. Doutor Rank já dizia, a gente precisa viver. Viver o quê, de quê, porquê? Ela não sabe, nem eu, nem ninguém. Enquanto isso, ela caminha, até onde puder chegar, onde conseguir chegar sem ser abordada por panacas que precisam tirar as coisas dos outros. Afinal, isso também é trabalho. Pra eles, não pra todo mundo. Já pensou se todo mundo resolvesse sair por aí tirando tudo que é dos outros? Ideal seria andar armado com um bastão pra dar bem no meio da cara de qualquer interrupção a caminho de casa. Uma vez pararam ela pra pedir informação, onde fica a rua tal, e ela naquele mau-humor próprio de pré-menstruação, ela querendo esganar qualquer pescoço que pudesse servir de desabafo pra sua raiva de cotidiano, de mesmice, de fazer-sempre-a-mesma-coisa. Vai pro inferno, disse ela, pra onde eu vou te mandar e pra onde eu vou junto quando conseguir sair daqui. Mais um dia daqueles. Daqueles que tem sido cada vez com mais freqüência, daqueles que todo mundo tenta escapar pra não gerar um suicídio coletivo. Enfim, ela caminhava, ou tentava caminhar, com tranqüilidade, mas a mente dela era invadida por todo e qualquer tipo de pensamento que ficava triturando seus neurônios ao invés de trabalhar eles de maneira a criar algo construtivo ou uma solução pra todos-os-problemas-da-vida-medíocre. Uma noite preta, escura, nublada, gelada, solitária, suspeita. Seus passos ecoavam por entre os prédios e os estabelecimentos fechados da meia-noite. Ela só pensava, mais duas quadras e chego em casa, tiro toda a roupa e me atiro no sofá, fumo qualquer cigarro, abro uma cerveja barata e relaxo e me recompenso por ter tido outro dia imperfeito. Entro no MSN e fico no aparecer offline pra que minha barra não encha de caras querendo me comer por conta de papinhos “o q vai fazer no findi?”. Vou te mandar pra puta-que-o-pariu, asshole. Ela não precisava dar satisfação pra ninguém, ainda era quarta-feira, não sabia o que fazer no final de semana, mas não queria ir cantar no videokê de um barzinho sujo com péssima companhia. Preferia ficar na dela, assistir a algum filme da lista dos 100+ da Bravo! ou ir pra algum lugar alternativo encher a cara e reclamar de sua vida pro primeiro cara de All Star que encontrasse. O pior é que All Star agora tá na moda, pensou ela, qualquer um usa. Então alugo o primeiro cara que não começar o papo com algo do tipo “você era a mais linda entre todas da pista”. Quero é coisa boa, papo que renda, que me faça refletir sobre tudo que eu acreditei a vida inteira e que, naquele momento, percebo que é mentira. Quero é tomar cerveja de graça, quero ir pra um apartamento com pôsteres dos filmes do Wim Wenders e falar coisas sem sentindo enquanto transo loucamente com um desconhecido. Ela não precisava disso tudo, precisava só de um pouco de amor, de afeto, era carente assumida e queria só compartilhar a carência com alguém. Nem precisava ser em bar, em noite, podia conhecer na Internet mesmo, não, não, hoje em dia é tudo fake, precisava conhecer alguém por intermédio de alguém, daí dá pra confiar mais. Uma quadra e ela chegaria em casa. Só mais uma. Só mais um obstáculo diante dela. E vieram. Dois homens vieram, encostaram nela por trás, ela tremeu, eles apalparam. Ela se desvencilhou, tentou reagir, tentou colocar toda a sua raiva pra fora. Mas foi em vão, porque eles tinham uma vantagem: arma. Dois tiros no peito e um na cabeça. Uma bolsa roubada e um corpo atirado na calçada. O fim de todas as coisas que pretendia fazer no resto de sua vida, o fim de todas as reclamações que viraram rotina em sua vidinha podre. Agora era ela, ali, de verdade, esperando só mais uma atitude de qualquer coisa pra ir parar no inferno. Deixa ela. Ela sempre quis partir. Só mais um suspiro e o fim de tudo. Sem lamentações. Era a vez dela fugir. E fugiu. Sozinha, ela conquistou o lugar que achava merecer. Merecer. Foi assim que ela entendeu tudo que jamais tinha compreendido. E chegou onde sempre quis estar. Ponto.

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